Escola Politecnica Joaquim Venâncio / Fiocruz

Portfólio de Práticas Inspiradoras em Atenção Psicossocial

CaminhARTE: A TAR na constituição de redes entre atores humanos e atores não-humanos na natureza

Buscamos com o caminhARTE, tecer novas formas de nos relacionarmos, que sejam mais sustentáveis e potentes.
Rio de Janeiro. Parque Nacional da Tijuca, Alto da Boa Vista, Horto. - RJ
  • Campo do Saber
  • Campo de Prática
  • Público Alvo

O caminhARTE possui como embasamento teórico os estudos da psicologia e da Teoria Ator-Rede, bem como autoras e autores que tenham diálogo com essa metodologia, como Ailton Krenak e a Vandana Shiva. 

 

Autores: 
Debora Emanuelle Nascimento Lomba, Fernanda Ferreira da Silva Azevedo Palhares, Luiza Gonçalves Monteiro Bezerra, Rebecca Araújo Arruda
contatocaminharte@gmail.com lab.contar@usu.edu.br
Instituições vinculadas: 
Universidade Santa Úrsula (Curso de Psicologia)
Resumo afetivo: 

CaminhARTE é um convite para estarmos na natureza, e nos afetarmos pelos atravessamentos dos encontros com a arte e com os atores humanos e não-humanos. Através das experiências vivenciadas, das trocas a partir dos estudos da Teoria Ator-Rede (TAR), e de demais autores, buscamos formas mais potentes e sustentáveis de nos relacionarmos, e de esTARmos no mundo.

Contexto: 

Em um cenário de crescente colapso ecológico, buscamos produzir uma Psicologia, através da Teoria Ator-Rede, que abranja tais questões, percebendo como o desequilíbrio ecológico compõe uma estratégia social e cultural de subjugação de alguns seres em detrimento de outros. Além disso, através da arte e de uma proposição de maior horizontalidade com os atores não-humanos, buscamos a ressignificação das relações para um olhar em rede, pela perspectiva de se fazer COM, entendendo que o ser humano também faz parte da natureza. Assim, buscamos substituir a lógica relacional do capitalismo patriarcal de exploração da natureza e de pessoas postas socialmente como inferiores, pelo viés de questionamento crítico da horizontalidade em rede. 

Motivações: 

Percebemos que embora o Rio de Janeiro possua diversos parques e espaços para realização de trilha e com possibilidade de contato com a natureza, nem sempre estes locais são vistos como um campo de possibilidades para a Psicologia. Da mesma forma que a conexão Psicologia e Natureza, com simetria entre elas, não costuma ser abordada e discutida ao longo do processo de formação. Sendo assim, este projeto surge com o intuito de unir prática e teoria psi promovendo atividades artísticas, habitando a natureza, e podendo refletir a respeito das possibilidades de relação que podemos ter com ela. Tudo isso pensando a indissociabilidade que temos.

Objetivo: 

* Afirmar a Teoria Ator-Rede como uma nova abordagem psicológica
* Questionar o modelo de ciência atual, através do estudo de epistemologias diversas, trazendo a reflexão da política cultural por trás dos saberes considerados válidos e inválidos na sociedade atual
* Propor formas mais potentes e horizontais de relação entre atores humanos e não-humanos, entendendo que os atores da rede não são dados de antemão, mas sim a partir dos encontros, e do que gera implicação.
* Pensar uma psicologia que não esteja apartada da dinâmica relacional com a natureza
* Buscar, através da arte, novas composições relacionais possíveis, vendo os afetos que reverberam dos encontros, sendo expressos e compartilhados nas dinâmicas artísticas. 
* Descobrir e habitar espaços naturais, levando os saberes acadêmicos para fora da academia
 

Passo a passo: 

O caminhARTE possui como embasamento teórico os estudos da psicologia e da Teoria Ator-Rede, bem como autoras e autores que tenham diálogo com essa metodologia, como Ailton Krenak e a Vandana Shiva. 
Buscamos práticas artísticas que visem a livre expressão, ao invés da interpretação, sempre intencionando que pela troca, possa se formar redes pelo encontro entre atores humanos e não-humanos. Vale relembrar que os atores não são dados de antemão. A rede de afetos se faz a partir do que gera implicação. Assim sendo, algumas atividades envolvem coleta de materiais naturais que tenham gerado afetação para confecção de alguma arte, ou ainda a partilha de artes prontas que debatam esta temática, que são trazidas para reflexão e troca. 

Efeitos e resultados: 

Como a nossa pesquisa se dá a partir da metodologia da Teoria Ator-Rede, o que reverbera dos efeitos do trabalho realizado é o impacto de tais vivências na criação de um “corpo que aprende a ser afetado”, conforme afirma Latour, no encontro com atores humanos e não-humanos na natureza.
Um dos efeitos percebidos foi a insegurança e o desconforto, que muitas participantes relataram no início da trilha, a partir da dificuldade de andar em terrenos irregulares, e então, ao longo da trilha, e principalmente no final, os relatos eram da mudança da disposição do corpo nesse ambiente, e do ganho de autoconfiança para caminhar. Inclusive, muitos participantes passaram a frequentar mais vezes o Parque Nacional da Tijuca, e aumentaram a frequência da prática de caminhadas em trilhas após as edições. 
Outro efeito bastante relevante observado, são os relatos de maior tranquilidade, paz e sensação de bem estar aos términos das edições. É unânime que as pessoas saem melhores do que entraram. 
Em relação aos momentos de trocas teóricas, baseadas nas leituras feitas no grupo de pesquisa, percebemos que  as pessoas adotavam uma postura de maior recepção, do que de interação com o conteúdo abordado. Assim, começamos a trazer perguntas disparadoras, que pudessem impulsionar a reflexão e a troca, e os resultados foram promissores, pois percebemos que as pessoas passaram a se sentir mais à vontade para agregar saberes, e então tiveram mais compartilhamentos sobre as afinidades com os assuntos trabalhados.
Além disso, em nossos momentos de inteireza temos como um dos objetivos trazer o estado de presença para o corpo, a fim de que esse corpo esteja mais disponível e sensível para os atravessamentos que ocorrem nos encontros entre os atores humanos e não-humanos nas trilhas, entendendo que o ator não é dado de antemão, mas sim no que gera afetação, e a partir dessas implicações, propomos atividades artísticas para que haja a expressão do que foi vivenciado, e as pessoas relataram felicidade e surpresa com a possibilidade de integrar a arte à natureza. 
Por fim, entendemos que os efeitos que reverberam das experiências propostas nas edições caminhARTE “fazem fazer” novos encontros e possibilidades de existência, através dos atravessamentos culturais, sociais, que constituem o nosso corpo e nossa forma de estar e ocupar o mundo, e na nossa disponibilidade ou indisponibilidade para o outro.